Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Uma questão de...

 

 

Afonso José de Borbon y Cortez era, sob todos os aspectos, um marquês. Para além de ostentar um brasão e o título de 4º marquês de Ouguela e Terras do Caia, era ainda sócio benemérito da Academia das Artes, da Academia das Ciências, doutor honoris causa de três prestigiadas universidades, fundador da confraria dos doces conventuais alentejanos, proprietário da quinta dos almocreves e do seu afamado vinho, Terras do Caia e personagem destacada na vida pública, sendo presença regular em todas as revistas de sociedade nacionais. Para além deste rosto público, Afonso José de Borbon y Cortez possuía ainda algumas peculiaridades, do foro mais íntimo, mas igualmente fascinantes.
Em primeiro lugar, era um ateu confesso. Segundo as suas próprias palavras, a vida já era suficientemente complicada sem um Deus, para quê estar a complicá-la ainda mais, criando um ?
Em segundo lugar, era um herdeiro por vocação. Nunca precisara de trabalhar na vida – à excepção de ajudar o pai no banco, numas férias escolares – porque três tias, gente fina dos tempos de antigamente, o haviam presenteado com generosas heranças, regularmente espaçadas ao longo dos últimos anos. O marquês de Ouguela tinha portanto mais que o suficiente para sobreviver e até viver, com requintes de excentricidade próprios de alguns marajás ou sultões do petroleo.
Por último, era um praticante infatigável de modalidades mais ou menos radicais, como a espeleologia, o paraquedismo e o voo em ultra-leves, já contando no seu currículo algumas participações e prémios de destaque em competições nacionais e internacionais.
Se juntarmos a estes adjectivos o pormenor, com algum significado, do marquês de Ouguela ser uma figura bem parecida, ainda no vigor da idade, culto e de trato afável, depressa se concluirá que Afonso José de Borbon y Corez tinha o mundo... a seus pés.
Naquela manhã de domingo, em concreto, embarcara com um punhado de amigos num pequeno bimotor, para um conjunto de saltos de paraquedas, algures sobre a bacia do Alqueva; dois ou três saltos, depois um belo almoço na vila de Monsaraz e durante a tarde, talvez uma visita ao monte de uns amigos, a quem já não conseguia arranjar mais desculpas para não aparecer...
- Daqui a dois minutos – informou o piloto
O grupo entreteve-se a confirmar, pela enésima vez, todo o equipamento – é sempre melhor prevenir que remediar - As dobras, os fechos, os ganchos, os ajustes do cinto, a abertura do reserva, a viseira do capacete... tudo em ordem.
- Podem ir... – berrou finalmente o piloto, a voz a perder-se na turbulência do ar, mal abriram a porta lateral para o salto.
Um após outro, os seis amigos atiraram-se porta fora, de encontro ao azul, silencioso e frio céu de primavera.
E, de repente... o silêncio.
Por muitas vezes que saltasse, aquela sensação – pensava o marquês – era única, seria sempre única. O contraste repentino do interioir quente e ruidoso do avião para aquele silêncio frio do espaço, com uma imensidão de azul a cercá-lo por todos os lados.
Que melhor sensação de liberdade poderia algum dia experimentar, superior aquela ?
Ali, podia voar.
Poderia existir algum melhor sinónomo para a liberdade... do que voar ?
Afonso mergulhou, seguindo os companheiros. Como habitualmenmte, desceriam em queda livre até ao primeiro patamar, e só depois abririam os paraquedas, de uma forma sequencial. De seguida, só precisariam de se orientar correctamente, não perder o castelo de Monsaraz de vista e tentar pousar no campo aberto defronte ao convento, onde seriam recolhidos pelo velho Manuel, o motorista habitual daquelas andanças de fim-de-semana...
Do alto, o vasto lençol de água do Alqueva sobressaía num azul forte, carregado, recortando-se com nitidez da massa castanho-escuro dos montes vizinhos. Dezenas de pequenas ilhotas, das mais variadas formas e dimensões, compunham o cenário fantástico que, aquela altitude, lhes era dado observar.
- Um minuto... – pensou para si próprio - ... o tempo de queda livre, os braços abertos, o vento a sibilar num longo assobio e o chão a aproximar-se vertiginosamente, os pontos longinquos a transformar-se sucessivamente em árvores, casebres, animais...
Sentiu um dos companheiros a afastar-se ligeiramente para o lado e, segundos depois, desapareceu-lhe do campo de visão. Logo a seguir, outro e ainda outro.
Afonso seria a seguir. Com imensa pena, puxou o cordão e preparou-se para o esticão das cordas, quando a deslocação do ar o travasse violentamente na sua descida.
 
Nenhum esticão.
A mochila continuava fechada... e ao seu lado, outro companheiro abriu o respectivo paraquedas, subindo instantaneamente .
- Então ... o que é isto ?
Puxou novamente, mas ... nada, rigorosamente nada.
O último companheiro abriu nesse momento o paraquedas e ele continuou sózinho, mergulhando no vazio. Bem abaixo, as muralhas e o castelo de Monsaraz ganhavam forma e volume, as estradas começaram a desenhar-se sobre os campos, contormando montes e atravessando ribeiros.
Assustado, puxou frenéticamente o paraquedas de reserva – maravilhosa ideia aquela que alguém tivera um dia, a de dotar os paraquedistas de um paraquedas de reserva. Nunca lhe acontecera falhar o paraquedas principal mas... afinal havia uma primeira vez para tudo...
Um clique, dois cliques e ... tudo permaneceu na mesma. Algures bem acima da sua cabeça, cinco cogumelos coloridos enchiam o céu... e o seu não era um deles.
Um pânico imenso invadiu-lhe o espírito. Então... seria aquilo ... o fim ? Assim, inglório, quase anónimo, um pequeno acidente... e mais nada ?
Um galopar de imagens assaltou-lhe a vista turva, intercalando o recorte das casas, da torre do castelo a aproximar-se, com imagens desfocadas de momentos já vividos, rostos familiares, lugares de sonho que visitara, até uma ou outra gulodice que ainda lhe preenchia a memória... enquanto se precipitava para o abismo.
Sentiu-se indefeso.
Era absolutamente inútil pedir ajuda, fosse a quem fosse.
Não conseguia desviar-se e tudo indicava que se iria despenhar não no campo aberto defronte do convento, como planeado, mas directamente sobre a torre do castelo ou dos telhados da igreja, bem ali ao lado.
- Onde quer que seja... não vai ser nada bonito...
Tinha cerca de vinte segundos pela frente.
O que é que se pode fazer em vinte segundos ?
 
Dez segundos ... nove ... oito...
Um estrondo.
Sentiu os músculos retorcidos e o peito metido para dentro. Uma dor lancinante atravessou-lhe o corpo quando, demasiado tarde, o paraquedas de reserva se abriu.
Em câmara lenta, sentiu – mais do que viu – os últimos metros desaparecer e a praça de xisto negro, bem defronte da igreja, encher-lhe o horizonte.
A lona azul e branca do páraquedas, com um rugido de cordas a bater e costuras a rasgar, embate violentamente no pináculo de uma das duas totrres da igreja.
Como se de um gigantesco baloiço se tratasse, Afonso descreveu uma curva acrobática, rasando o chão, embatendo de raspão no pelourinho... subindo novamente em arco... descendo uma vez mais... até cair pesadamente na escadaria principal da igreja.
 
Uma eternidade depois... abriu os olhos. Sem perceber porquê, continuava a sentir as pernas, os braços... tacteou o rosto e achou-o normal, até.
Estava vivo ?
Levantou-se, para cair logo de seguida.
Estaria realmente vivo ?
Apoiando-se sobre os cotovelos, juntou as últimas résteas de energia e ergueu-se, cambaleante.
Sangue... onde estava o sangue, não havia sangue ? Nem uns ossos partidos, uns músculos rasgados, umas fracturas expostas ... nada ? Mesmo nada ?
 
Desconfiado, ergueu os olhos para as alturas.
- Para que conste... murmurou baixinho – continuo a não acreditar que existas... mas lá que deves ter uns ajudantes muito eficientes... lá isso tens...

 

publicado por entremares às 21:47
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1 comentário:
De Jorge Soares a 4 de Março de 2009 às 23:57
~Eu sou dos que digo: Deus não existe ponto final! .... mas também não salto de paraquedas :-)

Mais um excelente texto.... de cortar a respiração.

Abraço
Jorge

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