Domingo, 1 de Março de 2009

O preço certo...

 

 

Os espelhos, quaisquer espelhos, têm a irritante virtude de ser sinceros.
Assim pensava ela, enquanto tentava apertar um pouco mais o cinto das calças de ganga azul, já no limite.
O esforço não compensou. No penúltimo furo, o ar já lhe começava a faltar e só de pensar em dobrar-se para a frente... bem, era melhor nem pensar nisso.
Desistiu.
- Detesto... detesto mesmo quando a roupa encolhe... – e virou as costas ao espelho, como se o estivesse a punir pelo insucesso.
Decidida, acabou por trocar as calças de ganga por uma saia rodada; depois uma blusa, umas botas e pronto, estava a toilette feita – acabara-se a paciência.
- Vamos mas é a despachar isto, que se faz tarde...
Saiu para a rua.
Domingo de manhã, dia habitual para as compras de supermercado – dia de fila na zona do pão, das verduras, das caixas registadoras – ou seja, um dia para desperdiçar tempo. Mas como via outra alternativa, para quê atormentar-se ?
 
Já com o carrinho semi-cheio, aproximou-se da zona perigosa.
Para Mariana, a zona perigosa consistia em todos os corredores compreendidos entre a zona das verduras e a zona dos iogurtes – que é como quem diz, a zona dos doces, dos chocolates, das compotas, dos recheios e demais pecados.
Mariana sentia que conseguia engordar, só com o cheiro do chocolate.
No entanto, acabara-se o stock de cereais – aqueles em cujas caixas apareciam sempre mulheres com aspecto de nunca os terem provado – e portanto, precisava mesmo de pisar o terreno traiçoeiro e reabastecer a dose semanal.
Mal contornou a esquina dos cafés e das bolachas, uma figura saltou-lhe ao caminho, assutando-a.
- Muito boas tardes, minha senhora, peço imensa desculpa se a assustei...
Ela deu mais um passo para trás.
- Quase, quase...
- Peço-lhe desculpa, novamente... estava aqui distraído e nem dei por ... olhe, já alguma vez provou ?
E, com um gesto meio repentino, colocou-lhe um pacote colorido nas mãos.
- É novidade, portanto não deve conhecer...
A Mariana esboçou o seu sorriso típico de Não-vês-que-estás-a-ser-um-chato e ainda argumentou:
- Olhe, para ser sincera... não preciso de nada daqui deste corredor... mas obrigada na mesma...
O homem, com aspecto de vendedor, um longo avental branco e um laçarote rosa choque ao colarinho, não desistiu.
- Bem pelo contrário, minha senhora, bem pelo contrário... eu tenho a certeza que se lhe disser o que está aqui dentro deste pacotinho, a senhora já nem me deixa ir embora...
Agora Mariana já sorriu com vontade. Olhou para o relógio, a imaginar o que poderia acontecer se perdesse dois minutos a ouvir a conversa fiada de mais alguma nova marca de cereais ou barras energéticas. Enfim...
- Olhe... dou-lhe trinta segundos. Ainda tenho que ir escolher a carne e os iogurtes, portanto, seja lá o que for que estiver a vender... despache-se.
O vendedor colocou o seu ar protocolar de ofendido.
- Mas eu... eu não lhe vou vender nada... eu vou oferecer-lhe ... dinheiro.
- ...
- Ah... por esta é que não estava à espera, confesse...
Ela olhou em redor, à procura de testemunhas, câmaras ocultas ou armadilhas disfarçadas.
- Sim, sim... claro... estamos nos apanhados da televisão, ou coisa parecida, não é ?
- ...
- Não ?
- Não. Não quer o dinheiro ? Pronto. Desculpe... – e começou a afastar-se, num passo miudo e bem estudado.
A Mariana decidiu mudar de estratégia.
- Vá lá... pronto, eu ouço-o... diga lá o que tem para dizer...
O vendedor voltou a aproximar-se e exibiu novamente o pacote. Assim mais de perto, era muito semelhante em forma e tamanho a um pacote de cereais; branco, com uns símbolos a vermelho e preto, numa escrita que Mariana julgou semelhante ao chinês, ou japonês.
- E então, o que tem dentro desse pacote ? – voltou ela, já resignada.
- Este pacote tem... um chá. Um chá especial... – e, enquanto falava, ia abrindo o pacote branco. Retirou do seu interior um saquinho transparente e uma folha de papel, toda garatujada com aqueles caracteres de aspecto oriental, idênticos aos do exterior da caixa.
- Um chá da China ? – alvitrou ela, relacionando com os caracteres de aspecto oriental – não é para admirar, agora já quase tudo vem da China...
- Mas este é um chá especial... e por isso é que eu lhe vou pagar para o provar e depois... me dar a sua opinião...
- Um pouco mãos-largas, não é ? Andar assim a dar dinheiro, com a crise em que estamos...
Ele sorriu, enigmático.
- Pois... temos sempre que dar para poder ... receber, não é ?
Ela concordou.
- E o que faz esse chá ? – quis ela saber, curiosa – cura alguma coisa ?
- Este chá... é o chá xū róng , que mal traduzido... significa algo parecido a ... vaidade
- Xurong ? Nunca ouvi falar...
- Xu róng ... é mandarim... mas não se preocupe com o nome, o importante é o que ele faz... e este chá é o elixir... o elixir da beleza...
Mariana acenou a cabeça, já esclarecida.
- Pois...
- Acredite... este chá vai tirar-lhe as rugas... vai retirar-lhe todo o peso que tem a mais... veja, até vai conseguir voltar a vestir aquelas peças de roupa de que já nem se lembra...
- E, se assim fosse – a Mariana voltou a olhar para o relógio – ainda me quereria pagar para eu o experimentar ?
- Certamente, certamente... ora veja... – e mostrou-lhe um maço de notas.
Mariana fez uns cálculos rápidos e o vendedor tinha nas mãos uma quantia muito, mas muito simpática...
Ele percebeu-lhe o brilhozinho nos olhos e colocou-lhe a folha de papel, com os caracteres chineses, e uma caneta na mão.
- Só precisa de assinar aí ao fundo... para eu justificar que recebeu este dinheiro... e depois só precisa de experimentar o chá, uma vez por dia, ao deitar... até acabar a embalagem.... mais nada.
 
Mariana saiu do hipermercado com o carrinho de compras cheio, um pacote branco de chá da China e um maço de notas dobrado no bolso.
 
Uma semana depois, Mariana não cabia em si de felicidade. Claro que não acreditava em chás milagrosos, mezinhas caseiras ou tratamentos de rejuvenescimento, mas o certo é que estava mais magra, a pele mais esticada e firme e as amigas, no trabalho, começavam a fazer perguntas – o que era um óptimo sinal, claro, de que alguma coisa estava diferente. E se a causa residisse no chá... pois então, beberia todo o chá que fosse necessário. Aliás, para perder aqueles quilitos e voltar ao perfil do antigamente, faria de boa vontade muito mais coisas do que simplesmente beber chá. Portanto, a primeira coisa que passou a fazer, ao acordar, era autênticamente correr para a balança da casa de banho e depois constatar, com um sorriso, que o peso já baixara em relação ao dia anterior.
 
Duas semanas depois, dirigiu-se de propósito ao hipermercado, à procura do vendedor. Não o encontrou.
 
Um mês depois ... o chá acabou.
Uma Mariana diferente, esguia e sofisticada, voltou ao hipermercado, à procura do vendedor de chás. Ainda receou não o encontrar, mas prontamente sossegou, ao vislumbrar o avental branco e o laçarote rosa choque, junto do mesmo corredor onde o encontrara anteriormente.
- Vejam só, vejam só... – e o vendedor encenou uma vénia teatral, enquanto ela se aproximava, equilibrada sobre uns saltos altos que lhe faziam rodopiar endiabradamente as ancas. – mal a reconhecia...
Ela sorriu, muito bem disposta.
- Confesso que estou surpreendida... – começou ela – porque nunca pensei que um simples chá... enfim, pudesse ter estes efeitos...
- Mas eu disse-lhe, eu disse-lhe... e agora, diga-me... quer outro pacote, não é ?
- Sem sombra de dúvida... claro que quero... até me pode dar mais que um... prometo-lhe que vou ser uma cliente muito fiel...
O vendedor sorriu também.
- É claro que sim, é claro... – e apanhou novo pacote.
Repetiu o ritual, retirando do interior o saquinho do chá e a folha de papel, desta vez com um aspecto mais legível.
- Ah... finalmente... vejo que já conseguiu colocar aqui o papelinho das instruções... em português...
Ele voltou a sorrir, enquanto compunha o laçarote rosa choque, que teimava em descair. – Sabe como é... cada vez temos mais clientes, e por isso... mas este pacote que lhe estou a entregar é diferente do outro, sabe ? Este chá aqui é de longa duração...
- Como assim ?
- ... Ou seja, não precisa de tomar todos os dias... basta tomar uma dose... só quando achar necessário...
- Mas isso é óptimo – e Mariana exultava de felicidade – não que eu desgoste do chá, não estou a dizer isso... mas assim já não preciso de o tomar todos os dias... não é ?
O vendedor concordou. Puxou do papelinho e de uma pequena agulha e segurou-lhe delicadamente a mão.
- Posso picar-lhe o dedo, só um bocadinho ? A empresa precisa de fazer testes de sangue a todos os consumidores... só para termos a certeza de que as pessoas não estão a abusar da dose recomendada, sabe como é... há sempre pessoas a exagerar...
Ela concordou. Tivera uma amiga com problemas de anorexia e fora uma caso bastante complicado de resolver.
Ele deixou escorrer uma gota de sangue para a folha de papel e voltou a embrulhar o saquinho do chá.
- Não se esqueça da assinatura...
Claro, como se podia esquecer ? Mas o importante era o pacotinho branco, e esse já o estava a segurar na mão. E ainda por cima, de efeito prolongado...
E o efeito prolongado seria ... quanto tempo ?
 
Naquela mesma noite, abriu o pacote e preparou-se para seu ritual do chá. Parecia incrível, o que um simples chá conseguira mudar na sua vida... e em tão pouco tempo.
Sentou-se a descansar, à mesa da cozinha, esperando a fervura da água. Abriu o pacote branco e retirou a folha das instruções, ainda manchada com a gota de sangue.
- Ainda bem que se lembraram de escrever isto em português...
Começou a ler.
 
A meio do texto, o sorriso desapareceu-lhe do rosto.
Segurava o papel com as duas mãos, mas as letras pareciam dançar, ora fugindo para um lado, ora para o outro. Aquilo não fazia nenhum sentido... mas o que era aquilo ?
Continuou a ler. Ao fundo, o silvo da chaleira passou despercebido, como se nem existisse.
Mariana lia agora as últimas linhas, e não se estava a sentiu muito bem. O coração palpitava-lhe com força, sentia-o na garganta presa. O que era aquilo?
Leu e releu, e leu ainda uma terceira vez.
... “ e assim, pelo presente contrato, que vai ser assinado pelo punho e pelo sangue do subscritor, este cede livremente a sua alma , sem qualquer reserva nem oposição, para ser oferecida ao senhor das trevas, a troco do uso do elixir da juventude, durante a sua vida terrena... este contrato, depois de escrito e assinado, é irrevogável e não pode... “

 

publicado por entremares às 15:21
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3 comentários:
De Fadinha da Sombra a 1 de Março de 2009 às 17:05
Belo texto!

Logo que possa responderei ao desafio.

Beijitos :)
De Jorge Soares a 1 de Março de 2009 às 18:21
A vida é feita de ideais... o de beleza é o mais caro..sem dúvida

Excelente texto
Abraço
Jorge
De Franciely a 2 de Março de 2009 às 01:01
Valeu por deixar um comentário no meu blog,e a pura verdade mesmo que a única forma de me desabafar é no meu blog...eu tinha uma unica amiga mas ela casou e mudou d cidade.Não sou d fikar reclamndo..mas as vezes as decepções são muitas.

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