
Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não
( Vinicius de Moraes )
Nascer de novo
Lá fora, a noite teimava em não deixar entrar a aurora.
Só o luar, aquele luar de janeiro, cobria a paisagem de branco.
Levantou-se do leito, nu.
Indiferente à brisa gelada, abriu as janelas e deixou-se banhar por aquela luz inebriante
Algo de diferente lhe acontecera.
Pela primeira vez em muito tempo conseguira adormecer... sem sonhos, sem pesadelos, sem memórias, adormecer simplesmente.
Observou-se por momentos, a pele esbranquiçada reflectindo a luz leitosa da lua. As marcas, as mágoas, as tristezas... haviam desaparecido, a pele rejuvenescia como que alimentada por um bálsamo milagroso.
Duvidou de si mesmo – Estarei morto? – mas não... não havia engano possível, continuava vivo, sentia-se a respirar, o coração batia, conseguia mover a ponta dos dedos.
Abriu e fechou os olhos, e a paisagem do jardim banhado pelo luar não se alterou.
- Estou vivo – repetiu - ... estou mesmo vivo...
Com um gesto lento, levou as mãos ao pescoço. Soltou o finíssimo fio de prata que sempre carregara consigo e deixou-o deslizar por entre os dedos.
Aquelas eram as suas memórias, as memórias do coração.
O que seria a vida, sem paixão? Nada, absolutamente nada.
Talvez por isso... tivesse sofrido tanto.
Mas a vida continuava, tinha que continuar.
Um arrepio de frio varreu-lhe o rosto, fustigando-lhe os cabelos.
“ Pior do que a solidão, só a descrença,
porque a vida só se dá para quem se deu.” – assim dizia o poeta.
Abriu a mão e o fio de prata escorregou-lhe pelos dedos, caindo abafado sobre o tapete branco.
Pela primeira vez desde há muito tempo, sentiu-se verdadeiramente nu.
Nu.
Completamente nu.
- Será como nascer outra vez? – perguntou a si próprio, continuando a observar a lua.
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